


Terceiro Margem : testemunha, tradução
de Davi Pessoa
64 páginas. R$ 15,00
Um enfrentamento com questões que atravessam há muito suas pesquisas de cá pra lá, de lá pra cá, entre coisas que lhe interessam da literatura brasileira e outras e tantas da literatura italiana. Um livro suspeito, com três ensaios que passam por dentro de um pensamento que é todo móvel: as afecções de sua tarefa de tradutor, as afecções de sua – agora, inventada e posta neste livro – tarefa crítica.
Riobaldo, narrador-personagem em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, é o que pode falar, testemunhando na sua fala a voz dos que foram silenciados e que não podem mais falar, porém, por outro lado, ele também assume o tom grandiloqüente dos donos do poder. A matéria dos discursos produzidos por Riobaldo é o vivido, e o narrador-personagem parece demonstrar-se consciente de que rememorar e testemunhar exigem escolhas, artifícios e trabalho sobre linguagens e formas de narrar.



Livro, segredo e Infâmia
de Júlia Studart
96 páginas. R$ 20,00
"Livro, segredo e infâmia parece investigar algumas formas do ínfimo, encobertas, disfarçadas, que programam uma fenda no ler-olhar e parecem provocar uma outra dimensão do ler-olhar. Sejam as criaturas mostradas na obra de Evandro Affonso Ferreira, absolutas insignificâncias que ganham contorno de vida e condição de torção narrativa pelo simples gesto de ser; seja no projeto de João Cabral de Melo Neto, em seu poema "Os três mal-amados", verdadeiro poema-abandono, ou num outro projeto, que é o contrário disso, pelo fôlego, tamanho, O Bairro, de Gonçalo M. Tavares, querendo escrever a partir de senhores que dão nome aos livros, O Senhor Brecht, O Senhor Juarroz, O Senhor Calvino, O Senhor Kraus (já publicados no Brasil) e, a seguir, mais 34 destes. O que não deixa de ser uma forma de desaparecimento, a magnificência."
Do Prefácio de Carlos Augusto Lima
Júlia Studart (Fortaleza, CE, 1979) é autora de Wittgenstein e Will Eisner – se numa cidade suas formas de vida (Lumme Editor, SP, 2006). Publicou também Marcaoaurélio! uma plaqueta com a artista visual Milena Travassos (CDMAC, 2006). É co-autora do filme Só tenho um norte:, sobre Cleber Teixeira e a editora Noa Noa. Faz doutorado em Teoria Literária (UFSC) a partir das linhas narrativas de Gonçalo M. Tavares. Vive em Florianópolis.
Lembro ainda do bonito texto de Michel Foucault, “Eurídice e as sereias”, e do que ele me provoca como questão: não seria esse gesto ilegível semelhante ao canto das sereias? Elas que “são a forma inexeqüível e proibida da voz atraente” (1990, p.53), mas que não são mais que canto. Por outro lado este gesto que não é mais que puro gesto, que é pura ausência de voz, de canto, de nome, mas que ao mesmo tempo é um gesto atraente, um convite, um “grato vazio da escuta”. No texto de Foucault, o canto das sereias – o que também procuro ler como gesto – seduz não tanto pelo que se deixa ouvir quanto por aquilo que fica em segredo nas palavras, como se todo encantamento estivesse na promessa do que será este canto, no seu por vir, assim também, como se cada gesto assegurasse um segredo inviolável que se desdobra num outro gesto-segredo e assim num movimento sem fim nem começo. Depois, esse canto nada mais é do que atração do canto, nada mais que canto e por essa razão – assim como o gesto do autor –, quase um silêncio, um canto sem palavras, um vazio, uma ausência de canto, feito um “rumor ”, um canto limite e impossível. Cito Foucault: “Esta voz que ‘canta sem palavras’ e que deixa ouvir tão pouco não é por acaso a das sereias, das quais toda sua sedução consiste no vazio que abrem, na imobilidade fascinante que provocam naqueles que as escutam?” (FOUCAULT, 1990, p.57).



55 começos
de Manoel Ricardo de Lima
224 páginas. R$ 30,00
"Em meio ao ranço de doença que impregna o ar do mundo, Manoel Ricardo de Lima ousa puxar conversa sobre a saúde e o imperativo que é gozá-la o mais intensamente possível. (...) Que saibamos fazer chegar esses fios de "fala inacabada" (para lembrar, desta feita, o lindo livro que ele fez, como poeta, em parceria com a artista visual Elida Tessler) aos debates acadêmicos, às salas de aula, às rodas literárias e a todo canto, enfim, onde a poesia e a literatura ainda façam algum sentido.(...) é fundamental que busquemos recuperar a dimensão estritamente cultural (porque vinculada à vida da coletividade, e não ao tilintar opressivo das moedas) da poesia e da literatura. E isso tem de sobra nesta intensa, comovente e essencial coleção de artigos com que Manoel Ricardo de Lima nos dá o que pensar."
Do Prefácio de Ricardo Aleixo
Manoel Ricardo de Lima (Parnaíba, no Piauí, 1970) é professor e doutor em Teoria da Literatura (UFSC). Publicou Embrulho (7Letras); Falas Inacabadas - Objetos e um Poema, com Elida Tessler (Tomo Editorial); Entre Percurso e Vanguarda - alguma poesia de P. Leminski (Annablume), As Mãos (7Letras), outra manhã, com Anibal Cristobo e Eduardo Frota (Dragão do Mar) e As Mãos / The Hands, com tradução de Sérgio Bessa (Lumme Editor). Organizou com Isabella Marcatti o livro de narrativas A Visita (Barracuda). Coordena a coleção Móbile de mini-ensaios para a Lumme Editor (SP). Tem uma coluna de crítica cultural no jornal Diário do Nordeste: http://diariodonordeste.globo.com. Vive em Florianópolis.
O livro é um leque
Há uma tradição que se pauta acerca da idéia do livro como objeto, o que se pode dizer, de um lado, livro de artista e, do outro, livro de arte. O que na superfície podem ser ambos uma mesma coisa, mesmo que completamente distintos. O que gera contrasenso e paradoxo pode ser o gesto, o motor, a conversa. Em 2001, o pesquisador Paulo Silveira publicou um estudo dos mais interessantes sobre esta questão: A Página Violada – da ternura à injúria na construção do livro de artista (Ed. UFRGS). E mesmo que alguns livros de poemas apareçam no conjunto reunido por Paulo entre cerca ou mais de 200 livros-objeto (como os de Augusto de Campos com Julio Plaza), não parece ser esta uma condição comum ao poema se ainda insistirmos em separar as coisas em disciplinas, literatura de um lado e artes visuais do outro, por exemplo. Paulo aponta estes livros como objetos plásticos, logo como elementos da linguagem das artes visuais.
E se aproximamos estas disciplinas como uma coisa só, dentro de um mesmo campo de tensões, um mesmo campo problemático, princípio mais interessante e inteligente, a meu ver, a dose é a mesma. E aí, tanto faz o caminho, o percurso, o de onde se parte; e passa a importar o quanto se tensiona mais ainda o próprio campo. E aí não também um entre-linguagens, mas uma mesma linguagem que é uma e outra ao mesmo tempo. Não sendo si sendo outro, sendo si sem deixar de ser outro etc etc. As combinações são inúmeras, um sem número delas.
Mas bonito pensar que um livro pode ser um leque. É uma imagem preciosa. Porque assim, como apenas imagem, o objeto pode também remeter a certas coisas que é apenas uma aproximação da imagem, como por exemplo: o livro como uma idéia de ventilação, de frescor, de fresta, de janela, de espaço por onde entra o ar quente do verão, o vento frio do inverno e por aí vai. Pode também remeter a outras coisas que seriam uma distância da imagem: o livro como um acordeão, como uma sonoridade de palhetas metálicas. E aí, mais longe, é possível lembrar da sanfona de Luiz Gonzaga e crer de pés juntos que ele segurava e tocava um livro, um calhamaço, e de lá retirava os seus baião, xote, forró e xaxado: fazia livros-jazz. O que seria o livro como um livro-objeto, como uma interdição, um ponto no espaço: o livro como lugar, como afetividade.
O último livro de Fernando Paixão, que se assina poeta, escritor de livros para crianças (que são sempre livros-objeto, exigência do lúdico e do jogo) pode ser um leque; no sentido também da expressão mais comum: um leque de opções: A Parte da Tarde (Ateliê Editorial), um livro-objeto. A partir de uma gravura de Evandro Carlos Jardim, de título homônimo, Fernando desdobra a sua poeira (‘Poeira’ que foi o título de seu livro anterior a este, talvez ali algo permeie sua origem portuguesa e a sua proposição próxima a poeira de Bataille). Neste A Parte da Tarde a gravura de Evandro é de um alaranjado de doer o olho. Um passáro de perfil alonga o papel em primeiro plano, ao fundo uma casa rígida se esvaece numa espécie de desmantelo de sua cor cinza, janelas escuras, sem o que ver dentro. É o pássaro o que importa. Diz o poema de Fernando: “Sou um pássaro quieto / aceito / pensamentos”, para dizer depois: “Pássaro / inquieto / sou / um pássaro em pouso”.
O texto da contracapa, do valioso Ferreira Gullar, ainda também separa os nós ou os desata, os da gravura e os do texto, e fica como demarcador desse problema ao apontar para o indizível: “uma fala que, na verdade, diz não o que a gravura diz, mas precisamente o que ela não diz e que só a palavra, por não ser gravura, pode dizer”. É esta precisão acertada demais que a palavra ainda pode dizer que talvez a ponha longe demais da vida, como se a gravura também não dissesse outras coisas ou todas as outras e várias. O bonito jogo de Fernando Paixão está na armadilha do livro-objeto e na parceria: o texto não é sobre a gravura, mas a partir da gravura. A gravura como ponto de partida para o texto, o texto como ponto de partida para a gravura. Ler um é ler o outro, ler o outro é ler o um.
Por fim, fio da conversa, Eduardo Frota (artista visual dos mais interessantes desse país), que trabalha com o que costumamos chamar escultura, mas uma escultura folheada, tem se tomado a dizer que faz poemas no seu trabalho, em cada peça, como se linhas, como se versos, como se outro dizer. Por outro lado, um poeta que ponho entre os mais radicais que conheço, Carlos Augusto Lima, em seus últimos trabalhos tem construído interdições de silêncio e objectualidades, sem voz: “as coisas / acontecem onde você esteja. quem / quer que seja. você.”


Série Alpendre de Poesia
coordenada por Carlos Augusto Lima e Manoel Ricardo de Lima
"Viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente."
João Cabral de Melo Neto, em Bifurcados de Habitar o Tempo
Alpendre tem um étimo com hipótese comum e sem história satisfatória, alpend. Tem a ver com apêndice, com anexo, mas também com pender. Depois com uma espécie de pequena extensão para fora, uma superfície. O alpendre é um espaço que vem como lugar de encontro e de pouso, uma espera. Mas pode ser passagem, contingência e instante. Um alpendre é também seu próprio ermo.



O Livro da Dança
de Gonçalo M. Tavares
120 páginas. R$ 25,00
Gonçalo M. Tavares (Luanda, Angola, 1970). Ganhador do prêmio Portugal Telecom em 2007 com seu romance Jerusalém (Cia das Letras), que faz parte da série O REINO, junto com A máquina de Joseph Walser, Um homem: Klaus Klump e Aprender a rezar na era da técnica. Publicou também O homem ou é tonto ou é mulher (Casa da Palavra), água, cão, cavalo, cabeça (Caminho) entre outros, e uma série de senhores que montam o seu projeto intitulado O BAIRRO: O Senhor Henri, O Senhor Brecht, O Senhor Kraus, O Senhor Juarroz, O Senhor Valéry etc. O Livro da Dança tem uma edição portuguesa pela Assírio Alvim, em 2001, e é o primeiro livro de Gonçalo M. Tavares. Vive em Lisboa, Portugal.
Recordar o óbvio
Contar a MITOLOGIA pelos dedos.
O corpo todo parado mas na extremidade da Mão a extremidade da Mão volta ao Início; AOS ARQUÉTIPOS.
Começar o espaço.
Até o DEDO pode começar o Espaço.
Não é começar no Espaço.
É começar o Espaço.
Até o dedo pode começar o Espaço.



Vazados & Molambos
de Laura Erber
40 páginas. R$ 15,00
Laura Erber (Rio de Janeiro, 1979) é poeta e artista visual. Estreou em 2002 com o livro Insones (7Letras); em 2006 publicou Os corpos e os dias / Körper und tage (Merz-Solitude, Stuttgart) com versão alemã do poeta Timo Berger. Com Federico Nicolao realizou o livro Celia Misteriosa (Io & Villa Medici). Atualmente vive e trabalha no Rio de Janeiro.
doucement
ela quer soprar uma coisa em você
a transcrição visual
da boca dizendo et maintenant, écoute
ela quer ver você subindo as escadas
depois descendo como um boneco
manipulado por dois ou três
virgens do Japão antigo
ela quer uma cena com estilo suave em que nada se esconda ou se ofusque
ela quer que tudo termine com o velho monge soltando as cordas do veleiro
ela quer puxar seus fios fazer você piscar ranger os dentes mexer os dedos
como um homenzinho-vivo
ela quer te quebrar em mil pedaços
e fugir com os tocadores de shamisen
depois voltar reconstruir vestir você
chorar sobre o seu corpinho esfarrapado



Exames de Rotina
de Tarso de Melo
40 páginas. R$ 15,00
Tarso de Melo (Santo André, SP, 1976) mora em São Bernardo do Campo com a Marli e o Henrique. Autor de A lapso (Alpharrabio), Carbono (Nankin), Planos de fuga (Cosac Naify) e Lugar algum (Alpharrabio). É também advogado, mestre e doutorando em Filosofia do Direito na Universidade de São Paulo (USP).
Ainda
continuo aqui – cinqüenta quilômetros distante
do mar, três décadas depois do último descanso,
em meio à insistente música das sirenes, ouvindo
entre as notícias do rádio canções que anunciam
estar tudo sob controle ao meu redor (a vida segue
mostrando seus dentes brancos, a pele bronzeada,
os cabelos ao vento, fartura na mesa, amor sem fim,
carícias da brisa, areia quente entre os dedos,
aposentadorias perfeitas na cidadezinha qualquer),
sentindo o relógio bater nos ossos, continuo aqui



a nossos pés
organização de Manoel Ricardo de Lima
Co-edição Dantes Editora
38 páginas. R$ 15,00
Com poemas de Anibal Cristobo, Annita Costa Malufe, Carlos Augusto Lima, Carlos Henrique Schroeder, Cristiano Moreira, Eduardo Sterzi, Heitor Ferraz Mello, Júlia Studart, Laura Erber, Manoel Ricardo de Lima, Marília Garcia, Ricardo Aleixo, Tarso de Melo e Veronica Stigger, o livro vem a partir de uma proposta feita por Dorva Rezende, para organizar um especial no Diário Catarinense sobre os 25 anos sem Ana Cristina Cesar: "algo que não fosse apenas uma efeméride, mas uma revisão por dentro dos poemas de Ana Cristina Cesar."
"Há 25 anos uma moça de olhos bonitos e mãos cobertas com luvas de pelica – Ana Cristina Cesar – interrompia um imprevisto e impunha outro. Daí em diante o que se tem, além dos poemas rasgados e charmosos de seu livro intitulado A teus pés, é um sem número de tentativas para juntar os cacos dos imprevistos: a reunião dos poemas deixados que foram editados sob o título de Inéditos e Dispersos, as cartas apontadas para si mesma como uma correspondência secreta, alguma crítica, alguma tradução, algumas anotações num caderno distraído etc. Nada que o sol não explique, diria Leminski. Ou ela mesma num poema-deboche quase um samba curto: "ela quis / queria me matar / quererá ainda, querida?"
Assim, este livro vem a partir de uma proposta feita por Dorva Rezende, amigo e bom parceiro de conversa, para organizar uma ocupação de duas páginas no segundo caderno do Diário Catarinense com algo que não fosse apenas uma efeméride, mas uma revisão por dentro dos poemas de Ana Cristina Cesar."





