Catálogo
Livro, segredo e Infâmia
de Júlia Studart
96 páginas. R$ 20,00
"Livro, segredo e infâmia parece investigar algumas formas do ínfimo, encobertas, disfarçadas, que programam uma fenda no ler-olhar e parecem provocar uma outra dimensão do ler-olhar. Sejam as criaturas mostradas na obra de Evandro Affonso Ferreira, absolutas insignificâncias que ganham contorno de vida e condição de torção narrativa pelo simples gesto de ser; seja no projeto de João Cabral de Melo Neto, em seu poema "Os três mal- amados", verdadeiro poema-abandono, ou num outro projeto, que é o contrário disso, pelo fôlego, tamanho, O Bairro, de Gonçalo M. Tavares, querendo escrever a partir de senhores que dão nome aos livros, O Senhor Brecht, O Senhor Juarroz, O Senhor Calvino, O Senhor Kraus (já publicados no Brasil) e, a seguir, mais 34 destes. O que não deixa de ser uma forma de desaparecimento, a magnificência."
Do Prefácio de Carlos Augusto Lima
Júlia Studart (Fortaleza, CE, 1979) é autora de Wittgenstein e Will Eisner - se numa cidade suas formas de vida (Lumme Editor, SP, 2006). Publicou também Marcaoaurélio! uma plaqueta com a artista visual Milena Travassos (CDMAC, 2006). É co-autora do filme Só tenho um norte:, sobre Cleber Teixeira e a editora Noa Noa. Faz doutorado em Teoria Literária (UFSC) a partir das linhas narrativas de Gonçalo M. Tavares. Vive em Florianópolis.
Trecho:
"Lembro ainda do bonito texto de Michel Foucault, "Eurídice e as sereias", e do que ele me provoca como questão: não seria esse gesto ilegível semelhante ao canto das sereias? Elas que "são a forma inexeqüível e proibida da voz atraente" (1990, p.53), mas que não são mais que canto. Por outro lado este gesto que não é mais que puro gesto, que é pura ausência de voz, de canto, de nome, mas que ao mesmo tempo é um gesto atraente, um convite, um "grato vazio da escuta". No texto de Foucault, o canto das sereias - o que também procuro ler como gesto - seduz não tanto pelo que se deixa ouvir quanto por aquilo que fica em segredo nas palavras, como se todo encantamento estivesse na promessa do que será este canto, no seu por vir, assim também, como se cada gesto assegurasse um segredo inviolável que se desdobra num outro gesto-segredo e assim num movimento sem fim nem começo. Depois, esse canto nada mais é do que atração do canto, nada mais que canto e por essa razão - assim como o gesto do autor -, quase um silêncio, um canto sem palavras, um vazio, uma ausência de canto, feito um "rumor ", um canto limite e impossível. Cito Foucault: "Esta voz que 'canta sem palavras' e que deixa ouvir tão pouco não é por acaso a das sereias, das quais toda sua sedução consiste no vazio que abrem, na imobilidade fascinante que provocam naqueles que as escutam?" (FOUCAULT, 1990, p.57).

